Afetos são ativos quando compõem relações produtivas. O bom encontro aumenta a alegria de viver, e potencializa o relacionamento das pessoas. Mas são passivos se as decompõem, e causam impotência e tristeza. É o encontro ruim, quando o santo não bate. A vida confronta-se com o acaso numa sucessão caótica de bons e maus encontros.
Organizar e produzir coletivamente dependem da arte dos bons encontros: constante incremento da potência de todos. Daí a política consistir também na organização afetiva da produção. Uma organização tanto melhor e mais democrática quanto mais proliferar, justapor e entrelaçar os desejos — contra toda paranóia unitária e totalizante, logo moral.
Os afetos têm valor. Esse valor das relações, contudo, não tem medida. A todo momento, esse valor escapa das tentativas de fixá-lo numa identidade, de embalá-lo e por-lhe preço. Nem tudo tem seu preço. O relacionamento entre as pessoas, com efeito, não tem preço. O que pode um corpo? relacionar-se ao infinito, em todas as direções, na procura esfaimada por bons encontros. Existe um certo modo de sentir —- de agir, de querer, de olhar, de perceber as coisas, — que corresponde a esse amor desmedido e bárbaro.
Só que, por possuírem valor, os afetos sistematicamente têm sido explorados. Expropriados do comum das relações. Eis vários exemplos, interdependentes:
1) A esfera do sagrado, — mãe de todas as expropriações, — separa a produção simbólica da circulação livre e ritualiza o seu uso. O objeto sacro não se encontra disponível para todos — a sua dimensão afetiva foi sacralizada. Isto hoje se chama propriedade. Noutras palavras, a errônea percepção de que é preciso ter algo para si para se vivenciar esse algo e ao redor dele travar relações.
2) As inúmeras formas históricas de tirania ou ditadura funcionam pela indução dos afetos passivos. Com isso, o tirano consegue organizar as paixões tristes, — o medo, a esperança, a paranóia — e governa os súditos. Não por acaso, a revolução se dá justamente quando o medo muda de lado e as pessoas param de esperar, e lutam. Agem porque desejam.
3) O fascismo se constitui como máquina de manipulação dos afetos. Martela o ressentimento e mobiliza as suas massas de manobra, a serviço de uma lógica excludente.
O capitalismo não sobreviveria sem explorar afetos. Toda a publicidade se constrói ao redor dos afetos: dos sentires, dos desejos, dos prazeres. Vendem-se a autoestima, a felicidade, a satisfação, — uma realização permanente e extasiante. Esse modo de produção reconhece a importância vital do relacionar-se bem, da adaptabilidade social, das habilidades comunicativas, da sensibilidade social (starts with you). É a dita “inteligência emocional”, o global care, o networking de que tanto fala a nova economia.
Em suma, o capitalismo taxa os encontros, comercializa as relações e espetaculariza a esfera comum — tudo isso para extrair lucro a partir dos muitos e em benefício de poucos.
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Por Bruno Cava
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